30 de março de 2011

Surto

 
 
  Arranhei o carro do meu filho porque estava estacionado atrás do meu. Prendam-me jogue-me  na cela mais escura e distante da civilização, eu mereço. Surtos. Em um momento estou doce como mel e no minuto seguinte, se qualquer coisa estiver fora de ordem, fora da minha ordem, surto. Sou um perigo ambulante. Só pensava que alguém esta me impedindo de fazer o que quero agora! Já! Voltei para dentro da segurança do meu quarto e tomei um ansiolítico. Se eu fui capaz de tamanha atrocidade com uma das pessoas que mais amo imagine o que eu não faria com aquele vizinho chato? Não arrisquei, não quero sair em paginas policiais. Aliás, não desejo sair em coluna nenhuma. 
     Passada a onda de fúria, mais calma fui confessar o meu crime. Ele apenas sorriu. Ai, como é bom saber que alguém te conhece bem. Ele soube, ele sabe que não fui eu, foi à viciada que habita agora em mim. Meus sentimentos nesse instante é um misto de   tristeza e fúria. E me pergunto a cada instante: Cadê eu?

29 de março de 2011

Dois dias sem cigarros

     Dois dias. Dois dias que eu estou fora do meu eixo. Dois dias sem sorrir, dois dias sem comer, dois dias sem eu. Dois dias me perguntando por que eu inventei isso mesmo? E não encontro uma resposta, mas como tenho consciência de que neste momento não há nenhum resquício de quem sou e nem de racionalidade em mim e que o motivo de tal decisão ficou lá atrás, então devo confiar na razão que neste instante não me lembro. A única coisa que sei é: eu sou uma besta por ter entrado nessa. E como não fujo a luta, adoro desafios e para ser quem sou preciso provar que posso, vou seguindo. Mas neste momento a pessoa que mais odeio no mundo sou eu. Então a lógica é: só dou aquilo que tenho, então estou distribuindo raiva a todo instante e nem adianta dizer que ninguém tem nada com isso, tem sim, só pelo simples fato de existirem. Tirem as pessoas do meu caminho ate minha sanidade voltar e tudo ficará bem. Eu sei lidar comigo mesma, com o desespero que me abate, mas neste momento é a única coisa que sei fazer, não me peçam para lidar com o outro por que me falta energia para isso. E o pior de tudo: isso é só o começo.
     Ganhei café na cama, gostaria de dizer que agradeci entusiasmada, não foi bem assim, mal consegui reproduzir um sorriso. Ganhei pitomba e consegui externar, mesmo que fraquinha minha alegria. Ganhei outros mimos, mas o que mais queria ganhar era uma maquina que me transportasse para daqui a 20 dias. Esse será o tempo que precisarei para voltar a ver o mundo com meus olhos, por enquanto vejo o mundo com os olhos de um fissurado. Um mundo estranho, cheio de vazios, onde falta  fumaça, nicotina, minha muleta.
     Espero que voce não tenha o azar de me encontrar por ai, mas se não puder fugir, lembre que essa coisa de olhar desesperado, salivando, com movimentos agitados, não sou eu. Estar em mim, vestindo minha pele, falando com minha boca, fingindo que sou eu, mas acredite. Não sou eu.

28 de março de 2011

Stop smoking

Neste momento não consigo formular uma frase para dizer como me sinto, então não direi nada.

24 de março de 2011

Dia dificil

   
     Acordei triste. Esse sentimento me é estranho. Um dos sintomas da abstinência. É como se outro ser habitasse meu corpo. - Sai coisa ruim que esse corpo não te pertence.Não adianta, não vou desistir. Nem que para sorrir tenha que ir ao espelho e fazer careta. Porei uma máscara e exercerei o meu maior papel como atriz. Lerei todos os manuais de  A criação de um papel, A construção da personagem, A  preparação do ator. Dormirei e acordarei com Stanislavski.  
     Primeiro pensamento do dia foi :" só sou feliz quando fumo". Pois que a tristeza seja minha eterna companheira, venha que eu a  transformo, não trabalharei a negação, esses pensamentos  existem e  são bem  reais e neste instante fazem parte de como estou. Não de quem eu sou. Combato-os quando os assumo. É um jogo de poder. Quem pode mais? A vontade consciente de que é chegada a hora de parar ou o serzinho sacana que me faz promessas de falsas felicidades momentâneas de fumaça inebriante? Façam suas apostas, eu já fiz a minha. Pensamentos contrario  a minha resolução invadem minha mente sem aviso prévio. Demito-os sumariamente a cada instante, mas eles teimam em pedir uma segunda chance.
     Não consigo me concentrar em nada. Os livros para me distrair  que escolhi a dedo, viraram de repente motivo de aflição, as pitombas acabaram. Comecei um caso com M&Ms, mas sei que vai durar pouco, não sou fã de chocolate.
     Em quanto espero outro amante, vou ficando só comigo. Meu maior inimigo e incentivador.

23 de março de 2011

Um mar em minha vida

  
  Como um tsunami, ela chegou sem aviso e com uma força desmedida derrubou todas as possíveis resistências que podiam residir em mim. Uma onda gigante de amor. Meu tsunami passou e como todos os tsunamis que se preze deixou sua marca, mas a marca não foi de destruição. Ficou um rastro de ternura e sorriso que ressoa neste momento em minha mente.
     E minha casa voltou a calmaria. Sinto saudades das tempestades de perguntas, da eletricidade interminável que me esgotava ao fim do dia. Meu tsunami tem a forma de criança, que me recebia  aos pés da escada de minha casa a cada amanhecer com um lindo e sonoro : "bom dia tia Nani". Que me fez colorir tantas paginas em branco quanto coloriu, nesses dias que ficou aqui, os meus dias. Meus sobrinhos tornaram minha ansiedade brincadeira de criança. Cada um a sua maneira nem sabem, mas  me salvaram de mim. Bibi com seu abraço silencioso foi o melhor ansiolítico que um abstênico pode desejar. Pepe adoçou tantas vezes minha boca com seu olhar doce e sua ternura desmedida. E minha tsunami que não me deixava só um só instante, não me permitia pensar em outra coisa a não ser na cor do lápis que iríamos usar. Que me pedia para desenhar algo para logo em seguida interferir cruzando com seu lápis os desenhos que nem conclui, porque sabia o que eu deveria desenhar e qual o desenho era melhor para mim  e realmente sabia.Ontem na despedida, com a sabedoria dos seus quatros anos, olhou para mim e disse: - Vai ficar tudo bem, tudo normal e quando o natal chegar a gente se vê de novo. Olhar brilhando por lágrimas contidas e o sorriso brincando com dificuldade em seu rosto. Seu olhar o tempo todo buscando o meu.
     Acordei e só ouvi os pássaros, nada de voz infantil, nada de som de TV ligada em canais infantis, nada. Só uma saudade imensa e o medo. Medo de não ser mais tão fácil as horas sem cigarros. Minha boca estava sempre cheia de contos de fada, de histórias inventadas para encher os ouvidos de minha amada.
     Estou com saudades de minha filha criança quando eu era a rainha e ela a princesa do castelo. Do meu filho que estava sempre pronto a me salvar. Saudades da infância dos meus filhos ou seria da certeza de ser a pessoa mais importante de suas vidas?
    Um mar morno de aguas límpidas e claras chegou de mansinho, banhou os meus dias, lavou minha alma, beijou o meu rosto, assanhou meus cabelos e me fez mergulhar em risos. Um mar em minha vida, um mar de amor. Um mar , um oceano chamado: Mariana.

22 de março de 2011

Subtraindo

 
   Pensei que a transição de 10 cigarros para 06 seria dificílimo, mas as coisas continuam iguais, sinto que aos poucos minha ansiedade vai ficando controlável. Às vezes ate esqueço-me de contar os cigarros que faltam. É bem verdade que o pior está se aproximando. Resolvi que na próxima semana, cuja meta era 03 cigarros, zerar. Isso mesmo a partir de segunda- feira cigarro zero. E venha o que vier.
     Descobri um ótimo antídoto para o cigarro. Pitomba. Isso mesmo, essa frutinha segurou minha onda no ultimo fim de semana. No caminho para Punaú, onde fomos curtir a lua, minha irmã comprou vários cachos desta deliciosa frutinha, fazia muito tempo que não provava pitombas tão doces.  Na volta fiz um estoque e confesso meu pecado, escondi só para mim. Quando a vontade de fumar batia, sacava a tal fruta e começava a chupar. Resultado, minha boca estava sempre ocupada e os lábios machucados, não tinha como pensar em fumar. Meu estoque está acabando e eu fico pensando em fazer uma pequena viagem para comprá-la, porque as que tem por aqui nem de longe são doces assim. Poderia substituí-las por beijos. Preciso manter minha boca ocupada, mas meu parceiro precisa trabalhar, comer e falar. Eu acho isso tão injusto. Pensei em sair por ai beijando quem encontrasse pela frente, mas infelizmente isso pode  dar cadeia, herpes, sapinho e encrenca das grandes, então é melhor me aquietar.
     Vou segurando a onda como posso e a pouco me espantei ao perceber que tinha fumado somente 02 cigarros e já é quase 16:00hs. Foi esta pequena vitória que me fez decidir que a partir de segunda nenhum cigarro tocará minha boca.

19 de março de 2011

Mais um dia

     Ontem acordei doente. Tão mal que fumei 04 cigarros apenas. Meu corpo todo doía e enjoada ao ponto de vomitar. Fui para a aula da especialização, mas não segurei a onda e no intervalo voltei. 
     Hoje acordei melhor e me lamentei pelos cigarros não fumados. Fui à aula e no meio senti a ansiedade crescendo, passei a aula colocando meu ponto de vista em todos os assuntos abordados. Pontos cegos. Não dá para confiar em alguém que pensa o tempo todo como sobreviverá ate o próximo intervalo sem um cigarrinho. Na minha ultima colocação, avisei aos desavisados caso passasse da medida, estava acometida pela abstinência e TPM, e não falei quieta, falei enquanto caminhava  pela sala. Estou no meu momento de intervalo para o almoço logo voltarei. Tomara que eu consiga controlar minha fúria.
     Um dos  assuntos abordados era sobre o perdão. Engraçado como todo mundo é perfeito e facilmente entende e assumem o perdoar em suas vidas. Não dá para acreditar que em uma sala com 50 pessoas, a questão da internalização do perdão é unânime. Seriamos um grupo de pessoas perfeitas e como todos sabemos perfeição não existe.
     Todos temos demônios e eles não pedem licença para se manifestar. Sei que o perdão é para mim não para outro e que isso me liberta de quem me incomodou. Mas nem sempre isso funciona assim, esta questão não é matemática. Não se trata de lógica, mas do seu oposto. E eu que já não preciso de algo para fazer explodir minha frustração de estar sem meu brinquedo preferido, elegi uma amiga que estava sentada ao meu lado para ser meu limite, não deixando me manifestar. Nem sempre  funcionou.
     Estou furiosa, nada haver sendo honesta com o assunto em questão, mas com o fato de ter fumado só 04 cigarros ontem e  por causa da aula, estou sem poder fumar quando quero. Quando a vontade bate estou na sala. Depois de falar para todos sobre abstinência  recebi solidariedade de alguns. Aquilo me acalmou momentaneamente. Quando o intervalo do almoço foi declarado, sai cega, surda e muda, tudo o que queria era chegar aqui e fumar.
     Voltarei para a aula em alguns minutos e sentei para escrever porque se não iria usar o tempo que falta para acender mais um com a desculpa que ficarei um bom tempo sem fumar. Desculpa é o que tento procurar o tempo todo. Ser racional é lasca. Identifico logo as primeiras desculpas surgindo e as esmago.
     Logo mais a noite irei enfrentar a noite do lual. Decidi não irei beber nada, para não cair em tentação e caso queira beber, beberei água do mar que provocam delírios e ai sim, neles poderei fumar.